A VIRTUALIZAÇAO DAS RELAÇÕES SOCIAIS

 A VIRTUALIZAÇAO DAS RELAÇÕES SOCIAIS

Pete Linforth por Pixabay

...segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos...”

Zygmunt Bauman

        A discussão sobre a autenticidade da rede inicia um vasto campo de análises, reflexões e caminhos da apreciação deste tipo de fenômeno sociocultural. São as imagens que de nós partilhamos autênticas? Que dizem de nós? Para abrir a controvérsia do tema em questão, inicia-se pelo próprio significado de autenticidade: propriedade daquilo que se pode atribuir fé, legitimidade; qualidade, condição ou caráter de autêntico; natureza daquilo que é real ou verdadeiro: verídico, puro, genuíno e que não é mentira nem fraude. Um “ser transparente”, sendo que, não há dúvidas de que ser verdadeiro é uma virtude. 

Mas será que podemos ser 100% transparentes nas redes? Já sabendo-se que, de acordo com Lévy e Baudrillard, nossa vivência está cada vez mais submersa nesta Rede, sendo o ciberespaço ou hiperespaço, um prolongamento de nós seres humanos.  

 “...eu afirmaria que essa lógica de redes gera uma determinação social em nível mais alto que a dos interesses sociais específicos expressos por meio das redes: o poder dos fluxos é mais importante que os fluxos do poder. A presença na rede ou a ausência dela e a dinâmica de cada rede em relação às outras são fontes cruciais de dominação e transformação de nossa sociedade: uma sociedade que, portanto, podemos apropriadamente chamar de sociedade em rede, caracterizada pela primazia da morfologia social sobre a ação social...” (CASTELLS, 2021)

 Mas até que ponto essa transparência não seria considerada um excesso? Somos ou poderemos ser transparentes? Onde estaria esse limite? Atualmente, faz-se necessário indagar sobre onde estaria essa fonte de luz que nos torna tão transparentes mesmo sem a nossa concessão. Seria essa fonte, uma iluminação natural ou artificial? Ao nos revelarmos tão transparentes, fazemos isso de maneira consciente ou involuntária? Ao “reagirmos” a tudo e a todos, invariavelmente e quase sem perceber, nos deparamos com um mundo virtual em que deixamos pistas das nossas vulnerabilidades, distraindo-nos, portanto, sobre o nosso legítimo direito à privacidade.

Consequentemente, autenticidade, verdade e transparência remetem para outros dois valores em que, o sociólogo e filósofo, Zygmunt Bauman nos faz rememorar e pensar, com a crescente virtualização das relações sociais, nesse mundo pós-moderno. E, assim, defende que existem dois valores fundamentais que são, definitivamente, imprescindíveis para uma vida com propósito e, relativamente, feliz: segurança e liberdade. Sendo que a ausência desses valores nos impossibilitaria da plenitude de uma vida digna “{...cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade e cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da sua segurança. Não há outra maneira. Então, você ganha algo e você perde algo...}”

Sob o ponto de vista de Bauman, em suas próprias palavras, ele relata que o problema, é que ninguém ainda na história e no planeta, encontrou a “fórmula de ouro”, a mistura perfeita de segurança e liberdade.

Quanto à questão: que somos nós de nós próprios na rede?

Creio serem significativas as considerações do Profº Luís Mauro, Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP (Brasil), em uma amostra de suas palestras, Viver em Sociedade é Sobreviver. Casa do Saber. YouTube. 

“{...sobreviver significa viver em sociedade, mas viver em sociedade também é um esforço para conviver com esse outro... viver com o outro, talvez seja o maior desafio do ser humano...viver com o outro significa em primeiro lugar ter uma abertura para a alteridade, ter uma abertura para aquilo que o outro tem e, essa abertura é muito rara e complexa...estar aberto para o outro significa reconhecer o outro como um eu, uma pessoa que é dotada das mesmas vontades, emoções, razões que você, mas que não é você e, que se considera tão digna de respeito e de compreensão quanto você. Na hora em que nós buscamos entender o outro como sendo um eu mas, que evidentemente, não sou eu, que está além do nosso controle, nós começamos a vislumbrar que é impossível se chegar a um conhecimento absoluto do outro porque para isso eu teria que ser esse outro e, isso é impossível, eu não posso abandonar o fato de que eu sou eu mas ao mesmo tempo eu começo a perceber que esse outro é muito parecido comigo...esse outro também tem as mesmas razões que eu, os mesmos afetos, e a partir daí, eu tenho uma pequena, mas importantíssima, abertura para essa alteridade quando percebo... que esse outro também é uma identidade em construção, muito parecida com a minha, uma identidade que merece o mesmo respeito, a mesma compreensão que eu espero para mim e, é nessa abertura que a gente pode talvez descobrir um universo incrível com o qual eu não sou obrigado a concordar mas que eu preciso pelo menos a aprender a ver que é o universo da alteridade}”.

E, ao refletir sobre alteridade, sendo a qualidade do que é outro ou do que é diferente, concebe-se a interrogação: Quem são e como são verdadeiramente esses outros que encontramos na rede? 

 Sob o ponto de vista do autor André Lemos, em seu livro A Tecnologia é um Vírus (2021), o capítulo “Rede e Utopia”, nos aponta sobre a percepção do que seria sobreviver em uma sociedade em rede e seus impactos nas relações sociais.

Por curiosidade, a origem da palavra “rede” vem do latim retis, do francês antigo réseuil, para designar tramas de fios entrelaçados, concebida inicialmente como algo exterior ao corpo. Sob a ótica de Lemos, ao se falar em rede, evoca-se um pensamento que busca a união apesar das diferenças, de contato, de conexão, que nos leva a conjecturar mundos possíveis (utopia) ao nos dar força para que as mudanças possam ser realizadas. Sabendo-se, é claro, que as mudanças tanto podem ser para o bem, assim como, para o mal. Assim o autor enfatiza que é nossa responsabilidade pensarmos sobre como é usada uma rede social, seja digital ou não.

E, sobre o vídeo fenómeno dos “rapazes chineses” que imitavam estrelas pop internacionais, na rede social YouTube, ao cantar a música I Want It That Way, nos remete a ideia de que ainda podemos ser engraçados, lúdicos, puros, de certa forma, transparentes e que nossa responsabilidade sobre o que é produzido na rede pode ser de partilha, de colaboração, de empatia, de alteridade, de inteligência coletiva.



Segundo, Lévy – que se considera um otimista – fica o convite de que cabe apenas a nós explorar as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural e humano.

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Referências

CASTELLS, M. (2021) A Sociedade em Rede. RJ: Editora Paz & Terra

 

LEMOS, A. (2021) A Tecnologia é um vírus. Pandemia e Cultura Digital.         Porto Alegre: Editora Sulina


LÉVY, P. (2021) Cibercultura. Editora 34: São Paulo.

BAUMAN, Z. O mundo pós-moderno: a condição do indivíduo. Abril                   2020.

Retirado de URL: https://www.youtube.com/watch?v=V_xuCzHjBEs

Acedido a 09/12/2021

MAURO, Luís. Viver em sociedade é sobreviver. Casa do Saber

Retirado de URL: https://www.youtube.com/watch?v=Ik2Y0SMAQkM

Acedido a 18/12/2021

I Want It That Way. Sung By 2 Chinese Guys. 29/04/2011

Retirado de URL: https://www.youtube.com/watch?v=fD7BuKD2n_Q

Acedido a 07/12/2021

  

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