EDUCAÇÃO E SOCIEDADE EM REDE
A VIRTUALIZAÇAO DAS RELAÇÕES SOCIAIS
...segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos...”
Zygmunt Bauman
Mas será que podemos ser 100% transparentes nas redes? Já sabendo-se que, de acordo com Lévy e Baudrillard, nossa vivência está cada vez mais submersa nesta Rede, sendo o ciberespaço ou hiperespaço, um prolongamento de nós seres humanos.
Consequentemente, autenticidade, verdade e transparência remetem para outros dois valores em que, o sociólogo e filósofo, Zygmunt Bauman nos faz rememorar e pensar, com a crescente virtualização das relações sociais, nesse mundo pós-moderno. E, assim, defende que existem dois valores fundamentais que são, definitivamente, imprescindíveis para uma vida com propósito e, relativamente, feliz: segurança e liberdade. Sendo que a ausência desses valores nos impossibilitaria da plenitude de uma vida digna “{...cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade e cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da sua segurança. Não há outra maneira. Então, você ganha algo e você perde algo...}”
Sob o ponto de vista de Bauman, em suas próprias palavras, ele relata que o problema, é que ninguém ainda na história e no planeta, encontrou a “fórmula de ouro”, a mistura perfeita de segurança e liberdade.
Quanto à questão: que somos nós de nós próprios na rede?
Creio serem significativas as considerações do Profº Luís Mauro, Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP (Brasil), em uma amostra de suas palestras, Viver em Sociedade é Sobreviver. Casa do Saber. YouTube.
“{...sobreviver significa viver em sociedade, mas viver em sociedade também é um esforço para conviver com esse outro... viver com o outro, talvez seja o maior desafio do ser humano...viver com o outro significa em primeiro lugar ter uma abertura para a alteridade, ter uma abertura para aquilo que o outro tem e, essa abertura é muito rara e complexa...estar aberto para o outro significa reconhecer o outro como um eu, uma pessoa que é dotada das mesmas vontades, emoções, razões que você, mas que não é você e, que se considera tão digna de respeito e de compreensão quanto você. Na hora em que nós buscamos entender o outro como sendo um eu mas, que evidentemente, não sou eu, que está além do nosso controle, nós começamos a vislumbrar que é impossível se chegar a um conhecimento absoluto do outro porque para isso eu teria que ser esse outro e, isso é impossível, eu não posso abandonar o fato de que eu sou eu mas ao mesmo tempo eu começo a perceber que esse outro é muito parecido comigo...esse outro também tem as mesmas razões que eu, os mesmos afetos, e a partir daí, eu tenho uma pequena, mas importantíssima, abertura para essa alteridade quando percebo... que esse outro também é uma identidade em construção, muito parecida com a minha, uma identidade que merece o mesmo respeito, a mesma compreensão que eu espero para mim e, é nessa abertura que a gente pode talvez descobrir um universo incrível com o qual eu não sou obrigado a concordar mas que eu preciso pelo menos a aprender a ver que é o universo da alteridade}”.
E, ao refletir sobre alteridade, sendo a qualidade do que é outro ou do que é diferente, concebe-se a interrogação: Quem são e como são verdadeiramente esses outros que encontramos na rede?
Sob o ponto de vista do autor André Lemos, em seu livro A Tecnologia é um Vírus (2021), o capítulo “Rede e Utopia”, nos aponta sobre a percepção do que seria sobreviver em uma sociedade em rede e seus impactos nas relações sociais.
Por curiosidade, a origem da palavra “rede” vem do latim retis, do francês antigo réseuil, para designar tramas de fios entrelaçados, concebida inicialmente como algo exterior ao corpo. Sob a ótica de Lemos, ao se falar em rede, evoca-se um pensamento que busca a união apesar das diferenças, de contato, de conexão, que nos leva a conjecturar mundos possíveis (utopia) ao nos dar força para que as mudanças possam ser realizadas. Sabendo-se, é claro, que as mudanças tanto podem ser para o bem, assim como, para o mal. Assim o autor enfatiza que é nossa responsabilidade pensarmos sobre como é usada uma rede social, seja digital ou não.
E, sobre o vídeo fenómeno dos “rapazes chineses” que imitavam estrelas pop internacionais, na rede social YouTube, ao cantar a música I Want It That Way, nos remete a ideia de que ainda podemos ser engraçados, lúdicos, puros, de certa forma, transparentes e que nossa responsabilidade sobre o que é produzido na rede pode ser de partilha, de colaboração, de empatia, de alteridade, de inteligência coletiva.
Segundo, Lévy – que se considera um otimista – fica o convite de que cabe apenas a nós explorar as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural e humano.
#virtualização #relaçõessociais #liberdade #segurança #privacidade #ciberespaço #conexão
Referências
CASTELLS, M. (2021) A Sociedade em Rede. RJ: Editora Paz & Terra
LEMOS, A. (2021) A Tecnologia é um vírus. Pandemia e Cultura Digital. Porto Alegre: Editora Sulina
LÉVY, P. (2021) Cibercultura. Editora 34: São Paulo.
BAUMAN, Z. O mundo pós-moderno: a condição do indivíduo. Abril 2020.
Retirado de URL: https://www.youtube.com/watch?v=V_xuCzHjBEs
Acedido a 09/12/2021
MAURO, Luís. Viver em sociedade é sobreviver. Casa do Saber
Retirado de URL: https://www.youtube.com/watch?v=Ik2Y0SMAQkM
Acedido a 18/12/2021
I Want It That Way. Sung By 2 Chinese Guys. 29/04/2011
Retirado de URL: https://www.youtube.com/watch?v=fD7BuKD2n_Q
Acedido a 07/12/2021
A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA: EIXOS DE (DES) ACORDO ENTRE PAUL VIRILIO E JEAN BAUDRILLARD
“Qual é o sentido desta transformação social causada pela
revolução tecnológica? A que nos conduz ela? Será mesmo que nos conduz a algum
lugar ou não mais é do que uma encruzilhada de caminhos que não levam a lugar
nenhum?”
Responder à estas questões foi o desafio proposto por
esta UC – Sociedade em Rede – à Equipa Alfa, formada pelos Alunos do Mpel´15. A
conclusão, a seguir, foi fruto de um debate realizado pelos estudantes ao
confrontar entre uma visão tipicamente otimista – representada por Jean Baudrillard
e outra pessimista – representada por Paul Virilio.
Paul Virilio e Jean Baudrillard foram filósofos
contemporâneos que se preocuparam com as questões sociais do Virtual. O fosso
geracional entre nós e eles, torna ainda mais extraordinária a atualidade dos
seus pensamentos pelos quais se estuda e estudará, procurando compreender este
fenómeno de Cibercultura. Para se concluir este grupo de estudo sobre os
autores, debruçámo-nos nas respostas às questões-chave.
Para encontrar respostas para a 1ª parte reflexiva da questão 3, analisamos os dois autores em simultâneo. Baudrillard na sua obra, como bem conclui a Ma João, refere-se ao presente e Virilio alerta para o futuro, existindo “espaços temporais (aparentemente) distintos”. No entanto, a Selin refere pertinentemente que estas questões tecnologias são questões do nosso tempo, será então que o futuro de Virilio já chegou e o vivemos presentemente?
Como a Ma João refere, Virilio “alerta
para a aceleração do real e da realidade, para “um tempo instantâneo”, “um
tempo inabitável” e nesse já nós vivemos. Portanto o espaço temporal dos
autores é idêntico na era da Sociedade em rede, mas não o seria certamente, na
época em que ambos teceram as suas reflexões. Em relação às influências
mediáticas, Baudrillard considera que “a cultura de massa produz uma realidade
virtual”, a que ele apelida de Hiper-realidade, mas que de facto já não é só
produzida pelos média de massa mas construída por todos nós como refere a Ana,
à semelhança das redes sociais que hoje utilizamos. Para Virilio (Covas, 2018)
" o ciberespaço, um sexto continente, uma colónia virtual para escapar ao
mundo plano”, a Ma João conclui que “ na visão de ambos, há
efetivamente uma mudança de paradigma, a passagem de um estado a outro”.
Sobre a questão 2 sobre a imagem e a hegemonia cultural,
concordamos que os autores se focaram no impacto da “imagem” e dos
“média” na sociedade, precisamente por perceberem o impacto da televisão, da
imagem e da imprensa, ao longo da última metade do século passado. O poder dos
média produziu uma cultura hegemónica, mesmo sendo o telespectador passivo e
não é a toa que apelidam os média de 4º poder.
A Ana resume o papel da televisão desta forma “o
telespectador, refratário à mensagem, neutraliza a televisão pela inércia. A
televisão converte o homem, por seu turno, em observador passivo”. A tela não é
um espelho, não é reflexiva, mas superficial.” Agora na era da imersão, já não
se tem um papel passivo, somos produtores, compactuamos com as tendências, com
a “lei do menor esforço” onde se consume tudo pronto.
Como o Samuel bem refere, o “real” depende do indivíduo,
da “mundivivência e mundividência” e aí reside a esperança, que nos transporta
a Lévy, onde refere que nos devemos munir de “práticas, de atitudes, de modos
de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do
Ciberespaço”(1999,p.17).
Na questão 1 sobre o significado do “real” para os
autores e os riscos da imersão virtual, já se conclui que para Baudrillard ao
“real” não existe, só simulações que aparentam ser reais e são construídas por
todos nós, a que ele apelida de Hiper-realidade. Virilio coloca a questão da
realidade da seguinte forma “Lugar do não lugar de transmissão instantânea”
(p.13) “tudo se joga no instante privilegiado do ato” (p33).Existe uma mudança
de paradigma, os significados apresentam-se de outra forma e tal como a Ma João
exemplifica, troca-se “a conquista do espaço pela imagem do espaço” ou “”
transforma-se o amador na cousa amada”.
Para responder à derradeira questão: Podemos considerar
que a revolução tecnológica é um mal que veio por bem, ou um processo no qual o
desfecho depende da Educação? Não é tarefa fácil segundo a visão dos autores,
isto porque o discurso nem sempre é apropriado à evolução tecnológica, no
entanto nenhum dos autores considera a evolução tecnológica má. Virilio alerta
para os riscos do virtual e para os acidentes que ao ocorrerem agora, são
globais e com repercussões de igual dimensão.
Baudrillard preocupa-se que o “real” nunca mais terá
oportunidade de se produzir”, no entanto sugere que haja planificação e
atualização de forma consistente, que suportem a “ininterrupta expansão”,
portanto não vê o virtual como mau, mas como sistema a ser controlado para
minimizar a “ilusão de notícias e dados”, como refere a Ana. A
Selin vai mais longe, referindo que, “the flourishing of all our technologies
can be regarded as offspring that have arisen from the progressive extinction
of an unsignifiable reality”.
Concluindo, parece-nos que a revolução tecnológica é
positiva, os “acidentes” são parte integrante de qualquer invento, portanto
devemos estar conscientes de que devemos conseguir “ler” esta nova forma de
comunicação e interação. Ainda existem pessoas que não dominam a leitura e a
escrita, estando mais sujeitos a influências externas que nem sempre são
fidedignas, tal como existem inúmeras pessoas sem competências de literacia
digital. Estas últimas estão sujeitas às mesmas pressões, ilusões e influências
que os ditos analfabetos e numa Sociedade em Rede onde a Educação Aberta é
proposta, é inaceitável.
A Ma João conclui da seguinte forma, “somos o produto de anos e anos de evolução, em que nos fomos adaptando ao meio, talvez, no futuro, fiquemos mais cerebrais, mas o que acontecerá à nossa fisicalidade?” A questão é essa, os milhares de anos de evolução tornaram-nos no que somos hoje fisicamente e já percebemos desvios de comportamento, mas intelectualmente evoluímos de forma francamente positiva. Nem tudo é mau, pelo contrário, temos hoje mais inteligência coletiva para enfrentar as dificuldades e combater aquilo que estes e outros autores nos têm alertado.
#cibercultura #hiperrealidade #virtual #baudrillard #virilio
Referências
Baudrillard, J. (1991) Simulacros e Simulação. Lisboa. Relógio D´Água
Virilio, P. (1993) A Inércia Polar. Lisboa: D. Quixote
CIBERCULTURA – PIERRE LÉVY
Logo, é um dos maiores defensores do uso do computador e suas redes, para promover a democratização do conhecimento e repensar as práticas pedagógicas, especialmente, a Educação a Distância já que, aumenta a demanda de aprendizagem contínua, devido o acesso cada vez maior do ciberespaço pelos docentes e alunos.


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